A Magia Teúrgica, ou Teurgia, representa a aplicação mais elevada das ciências ocultas, sendo definida como uma operação em que o mago, agindo como colaborador e agente da vontade divina, observa as leis universais e atua no interesse geral. No contexto da Cabala, ela é considerada a "yoga do Ocidente", buscando unir a profundidade das visões teóricas dos antigos com a exatidão e o poder da experimentação moderna.
Fundamentos da Magia Teúrgica: O Elo Cósmico
A Teurgia diferencia-se de outras práticas mágicas por sua busca em alinhar-se à força cósmica. O ocultista não tenta escapar da matéria, mas sim trazer a Divindade à humanidade e fazer a Lei Divina reinar sobre o Domínio das Sombras.
A Tradição Cabalística
O misticismo de Israel, a Cabala, fornece os fundamentos do ocultismo ocidental moderno e constitui a base teórica para o desenvolvimento dos rituais ocultistas. O seu hieróglifo mais famoso é a Árvore da Vida, que serve como estrutura essencial de classificação.
No âmago da ciência oculta, encontram-se três princípios imutáveis:
- A existência da Tri-unidade como lei básica de ação em todos os planos do Universo.
- A existência de Correspondências que interconectam todas as partes do Universo visível e invisível.
- A existência de um Mundo Invisível (o Plano Astral), que é o duplo exato do mundo visível.
O Poder da Invocação
Uma máxima fundamental da Magia Branca (Teurgia) é que toda operação deve começar pela invocação do Nome Divino na Esfera em que ocorrerá a operação.
O adepto que inicia sua obra em Kether (a Sephirah mais elevada, representando o ser puro, ou o Pai) no Mundo de Atziluth (o plano do Espírito puro) integra sua operação ao processo cósmico. A invocação de Eheieh (o Nome Divino de Kether, que significa "Eu Sou" ou, segundo algumas interpretações, "Eu serei") é a fórmula primária de toda operação mágica.
Se a operação começa com Kether, extraindo força do Imanifesto (reservatório de poder ilimitado), o mago aumenta as fontes do universo e evita a reação rebelde da natureza que ocorre quando se extrai poder das esferas inferiores.
Rituais Teúrgicos: A Arte da Manifestação
A magia é a arte de provocar mudanças de acordo com a vontade, a fé e o conhecimento das leis existentes entre os elementos naturais, o universo e o Homem. A aplicação teúrgica reside na manipulação da imaginação treinada.
O Elemento da Forma (Hod e Netzach)
As formas-pensamento são construídas no Plano Astral, que pode ser moldado pela mente. O mago opera primariamente na Esfera de Hod (o Intelecto), formulando as formas, e utiliza a vontade para reunir as forças naturais de Netzach (o instinto e as emoções, ou a Força no plano astral) que as animam.
- Hod (Mercúrio-Hermes) é a Esfera da Magia Formal e da veracidade (sua virtude suprema). É o "cientista" em nós.
- Netzach (Vênus-Afrodite) é o "artista" em nós. Os contatos com Netzach se dão pelo "sentimento adequado", por meio da dança, do som e da cor, e é a base da Magia Natural.
Para que a Magia seja eficaz, Hod (a mente racional e cética) e Netzach (o dinamismo instintivo) devem estar em equilíbrio. O mago deve controlar suas poderosas forças elementais a partir da esfera superior de Tiphareth (o Centro Cristológico), se desejar se manter no âmbito da Magia Branca.
O Preparo do Cerimonial
O local das operações deve ser um ambiente particular onde somente o operador tem acesso. Antes de realizar o ritual, o operador deve se purificar por no mínimo três dias, abstendo-se de drogas, alimentação pesada, excitantes, atividades sexuais e pensamentos desarmônicos.
O ritual é realizado dentro de um Círculo Mágico, que simboliza a vontade do mago e o protege de influências exteriores negativas. O círculo deve ser traçado no chão (com carvão), abençoado e aspergido com água consagrada.
Outros instrumentos essenciais incluem:
- Altar: Foco energético principal do ritual, reproduzindo o macrocosmo.
- Taça: Utilizada para invocar os elementais da água (Ondinas) e representa a energia feminina e a fertilidade.
- Espada: Símbolo de força e poder, relacionada ao elemento Fogo, usada para afastar agrupamentos fluídicos indesejáveis.
- Pentáculo ou Selo de Salomão: O pentagrama é um símbolo de proteção na invocação dos elementais do ar (Silfos). O Selo de Salomão (hexagrama) é um potente elemento de proteção e dominação sobre entidades relutantes, representando o grande equilíbrio mágico (a união do microcosmo com o macrocosmo).
O ritual deve ser realizado em um dia e horário escolhidos de acordo com a necessidade (por exemplo, Quarta-feira, dia de Mercúrio/Raphael, favorável a vitórias e estudos lógicos). A cerimônia se inicia pelo lado leste.
Os Magos e o Caminho do Adepto
O mago (ou ocultista) é aquele que conhece e aplica a Magia. Ele se distingue do feiticeiro, que é passivo às influências, pois o mago tem controle ativo sobre si mesmo e sobre as potências inferiores. O mago verdadeiro deve buscar sempre um bem-estar global, nunca interferindo na vontade do próximo, pois toda obra egoísta resultará em fatalidade.
O caminho do iniciado segue a Árvore da Vida, buscando a Superconsciência, que é a união da subconsciência (o mundo antigo) e da consciência superficial (o mundo moderno).
Magos Históricos e Mestres
Muitos grandes espíritos e mestres são associados à tradição da Magia Teúrgica e Oculta:
- Apollonius de Tiana: Figura misteriosa do século I, conhecido por sua oratória convincente e atos de bravura. Sua influência foi tão grande que o Cristianismo primitivo incorporou muitos de seus ensinamentos em aplicações práticas.
- Paracelso: Médico e alquimista que desenvolveu uma filosofia química e combateu a medicina tradicional, sendo um precursor da Iatroquímica. Utilizava a Alquimia para a saúde, não para a transmutação de metais.
- Giordano Bruno: Filósofo executado em 1600 pela Inquisição por suas teses elementares e revolucionárias.
- Éliphas Lévi: Autor de Dogma e Ritual da Alta Magia, desempenhou papel fundamental na popularização e estruturação do ocultismo ocidental moderno, baseando-se na Cabala e na Luz Astral.
O verdadeiro adepto não é um ser humano comum e deve servir à humanidade, mantendo certa distância e ganhando perspectiva. O iniciado é aquele que, pela persistência na meditação e no método, desperta a atividade que já existia em estado latente em sua natureza. A busca pela União Divina é a experiência espiritual mais elevada, atribuída a Kether, onde o ser atinge a compreensão da existência pura e incondicionada.
Pratique, busque, queira, ouse e cale.

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