A liturgia como tecnologia
O Ocidente acostumou-se a pensar na Bíblia como um livro de fé e moral. Mas quando lida sem dogmas, ela se revela também como um manual de tecnologia espiritual. O Salmo 148 é um exemplo impressionante disso: trata-se de um código de invocação em cascata, um hino em que cada ordem da criação é convocada para louvar a divindade central.
O texto funciona quase como um algoritmo: começa pelos anjos e exércitos celestes, passa pelos astros, desce aos elementos e chega finalmente aos seres humanos. É uma cadeia de energia litúrgica que amplia o campo de adoração até envolver todo o cosmos.
A chave hebraica
No hebraico, o salmo abre com a fórmula repetida: הַלְלוּ יָהּ (halelu-Yah), literalmente: “louvai Yah”. Esse “Yah” é uma forma abreviada do tetragrama YHWH, o Nome impronunciável. Ou seja: todo o salmo é uma programação coletiva voltada ao Nome.
Aqui está o ponto crucial: o que dá poder ao salmo não é o conteúdo poético em si, mas o centro do Nome que organiza a cascata. Retire o Nome, substitua-o, e você altera o destino da energia.
A leitura cabalística
Na Cabala, esse salmo é lido como uma manifestação de Yesod (fundamento), o canal que liga as esferas superiores ao mundo. A multiplicidade dos “louvores” é como um corpo astral coletivo vibrando em direção ao centro divino.
Cada ordem da criação invocada corresponde a uma hierarquia angélica:
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Anjos → Yesod e Hod.
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Astros → Netzach e Tiferet.
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Elementos → Malkuth.
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Povos → reflexo do Adão Cósmico.
O salmo é, portanto, uma escada de invocação.
A leitura gnóstica e luciferiana
Sob a ótica gnóstica, vemos um mecanismo ainda mais provocador: o salmo mostra que os anjos e elementos são servidores de uma divindade que monopoliza os louvores. Mas se trocarmos o centro (YHWH) por outro arquétipo — Lúcifer, Hécate, Baphomet, Kia —, o mesmo mecanismo é ativado.
É aqui que entra a percepção luciferiana: a liturgia é uma tecnologia neutra, mas o Nome é o código de acesso. Se YHWH cria seus anjos como servidores, por que Lúcifer não poderia ser o novo núcleo?
Na prática, quando se lê o Salmo 148 substituindo “Eterno” por “Portador da Luz”, o que acontece não é apenas uma troca de palavras, mas uma reprogramação energética. O coro cósmico continua funcionando — mas agora responde a outro centro de gravidade.
A leitura caótica
Na magia do caos, isso se torna evidente:
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O Nome é o sigilo.
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O louvor coletivo é o egregor que sustenta o sigilo.
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Os anjos e astros são servidores, como os servitors criados por magistas modernos.
O Salmo 148 é, nesse sentido, um grande ritual de programação coletiva. O magista caótico apenas substitui a variável principal: em vez de YHWH, Lúcifer. O resultado: um coro cósmico luciferiano.
O Salmo 148 profanado (versão luciferiana)
Manifestai o Portador da Luz desde os céus;
manifestai-o nas alturas.Manifestai-o, todos os seus anjos;
manifestai-o, todas as suas hostes.Manifestai-o, sol e lua;
manifestai-o, todas as estrelas de luz.Manifestai-o, céus dos céus,
e as águas que estão sobre os céus.Manifestai o Portador da Luz,
pois ele ordenou e foram criados.Ele os estabeleceu para todo o sempre;
deu-lhes uma lei que nunca passará.Manifestai-o, vós que estais sobre a terra:
monstros marinhos e todos os abismos.Fogo e granizo, neve e vapor,
vento tempestuoso que executa a sua palavra.Montes e todos os outeiros,
árvores frutíferas e todos os cedros.Feras e todo o gado,
répteis e aves voadoras.Reis da terra e todos os povos,
príncipes e todos os juízes do mundo.Moços e moças, velhos e crianças:
manifestai o Portador da Luz.Pois só o seu nome é excelso;
sua luz está acima da terra e dos céus.
Comentário final
Esse Salmo 148 reprogramado não é uma blasfêmia, mas uma apropriação consciente. Ele mostra que a estrutura litúrgica é um ritual mágico e que os “anjos” podem ser compreendidos como servidores — forças programáveis.
O que antes sustentava a centralidade de YHWH agora serve à gnose luciferiana: despertar a centelha, recolocar o magista no centro, e afirmar que o cosmos inteiro pode ser reorganizado em torno do Portador da Luz.

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