O Perigo de Ser Simplório: Uma Lição da Cabala do Dinheiro


No livro A Cabala do Dinheiro, o rabino Newton Bonder nos apresenta uma anedota aparentemente simples, mas profundamente provocadora. Trata-se da história de um homem humilde que, após levar uma vida sem ambição e morrer como indigente, é recebido nos céus com honra incomum.

Ele fora, segundo os anjos, a alma mais pura a ali chegar. O Criador, em pessoa, decide conduzir o julgamento dessa alma e, ao final, oferece-lhe tudo: "Tão maravilhoso foste em tua vida, que tudo aqui nos céus é teu. Basta que peças, e terás tudo". Mas o homem, tirando o chapéu, pede apenas um café com leite e um pãozinho com manteiga.

A decepção toma conta dos céus. O Criador se constrange. O Promotor Celeste (o Satã cabalístico) ri. E então se revela a verdadeira natureza daquele homem: não era um justo, era um simplório.


O Simplório e o Mercado do Cosmos

A mensagem aqui não é contra a humildade. O que Newton Bonder propõe é uma crítica sofisticada à negação do desejo, travestida de virtude.

Na Cabala, o universo é sustentado por um mercado vivo e espiritual, onde o desejo é a moeda fundamental. Quem não deseja, não participa da Criação. O Criador, cuja essência é doar e expandir, espera de suas criaturas a reciprocidade do querer. E querer muito. Desejar profundamente. Abrir-se para a abundância.

O simplório, ao pedir pouco, comete uma omissão espiritual. Ele é puro, sim, mas estéril.


A Falsa Virtude da Neutralidade

O homem da anedota pensa que está sendo humilde. Mas, aos olhos da Cabala, ele está desperdiçando sua centelha divina. O Criador se oferece como fonte ilimitada, e ele responde com inanição.

A pureza sem desejo é como um rio que se recusa a correr.

Esse tipo de "humildade" é uma forma sutil de egoísmo espiritual: é o medo de assumir seu poder, sua responsabilidade como co-criador do mundo.


O Desejo Como Oração

Na visão cabalística, desejar é uma oração. Pedir pouco quando se pode desejar tudo é quase uma heresia.

A verdadeira humildade não está em se apequenar, mas em reconhecer que somos canais da Criação. O justo é aquele que se posiciona, que deseja e age em alinhação com o fluxo divino.


Lições Cabalísticas

  1. O desejo é sagrado. Ele movimenta o cosmos.

  2. Ser humilde não é ser pequeno. É ser responsável pela luz que se carrega.

  3. Negar a abundância é romper o fluxo da Criação.

  4. O universo é um mercado espiritual. Não participar dele é um erro técnico da alma.


Conclusão

Newton Bonder nos entrega, com humor e elegância, uma chave poderosa: é preciso desejar. Desejar tudo. Com intenção clara, com fome de vida, com abertura para receber. O simplório nega esse fluxo e, por isso, não é celebrado.

"Na Cabala, desejar é rezar. E desejar pouco, quando se pode desejar tudo, é uma blasfêmia sutil contra a Criação."

O justo não tem medo de querer. Pois sabe que o querer é o que move os mundos.

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