"Ritual não é repetição vazia, mas um ato de significância simbólica ancorada no desejo."
- Phil Hine, Prime Chaos
Introdução: O Show Como Ritual
No dia 3 de maio de 2025, Lady Gaga reuniu mais de dois milhões de pessoas em Copacabana em um dos eventos mais hipnóticos dos últimos tempos. O que muitos viram como um show pop foi, para outros olhos mais atentos, a manifestação de um arquétipo: o ritual do Caos encarnado em performance.
A abertura, com a artista surgindo em um vestido vermelho colossal e teatral, evocando atmosferas barrocas, iluminada por luzes dramáticas e sons tribais modernos, remete diretamente a um tipo de invocação performática presente na magia do caos. Mas seria isso apenas estética? Ou haveria potência ritualística por trás do palco?
A resposta, para o magista do caos, é simples: se funciona, é magia. Se mobiliza desejo, arquétipos, intenção e gnose... então é ritual.
A Performance Como Ativador Arquetípico
Lady Gaga não é estranha ao simbolismo oculto. Desde o início de sua carreira, vem usando imagens que evocam mitologias, estéticas cabalísticas, simbolismo esotérico e provocações religiosas. A própria ideia da "Mother Monster" é uma reformulação arquetípica de deidades-mãe sombrias como Hécate, Lilith ou Kali, ressignificada em um contexto pop performático.
No show de 2025, a música de abertura, "Abracadabra", é um feitiço ancestral. Sua origem remonta aos gnósticos do segundo século, usada para cura, proteção e criação. Evocada repetidamente com intenção, é um mantra. E a palavra foi cantada por milhões, sob um campo emocional elevado. Para um ocultista, esse é um campo de gnose coletiva.
O que diz a Magia do Caos?
Peter J. Carroll afirma em Liber Null & Psychonaut que qualquer sistema de crença pode ser utilizado como plataforma para magia, desde que o operador compreenda suas estruturas simbólicas e opere com foco, emoção e desprendimento do resultado.
Phil Hine, em Condensed Chaos, vai além: o ritual pode (e deve) ser moldado pelo operador. O que importa é a intensidade simbólica e a capacidade de gerar um campo de consciência alterada que mobilize desejo e direcione intenção.
Lady Gaga, ao incorporar um arquétipo em cena, opera como canal. O praticante de magia do caos, ao assistir e ancorar a cena em seu intento, usa a artista como servidora egregórica temporária. É magia com arte, é arte como ritual.
Ritual: "Abracadabra do Caos Pop"
Finalidade:
Realizar um intento simples: desbloquear criatividade, afastar vergonhas sociais, atrair reconhecimento, iniciar um novo ciclo.
Materiais:
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1 vela vermelha ou branca
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1 incenso de benjoim ou mirra
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1 pedaço de papel e lápis
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Um celular, TV ou computador para reproduzir a abertura do show da Lady Gaga (link sugerido: https://youtu.be/m9-8mcC1Sbs)
Passo a passo:
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Prepare o Espaço:
Acenda a vela e o incenso. Posicione o aparelho que irá reproduzir o vídeo em frente a você. Sente-se com o papel e o lápis. -
Intente:
Escreva no papel, em uma frase direta, seu intento: "Quero destravar minha criatividade" ou "Desejo ser visto como autêntico", por exemplo. -
Crie um Sigilo:
A partir da frase, use o método do alfabeto sigiloso (retire vogais e letras repetidas, una as restantes em um símbolo). -
Assista o Vídeo:
Comece a abertura. Quando Gaga surgir, visualize-a como a encarnação da força do Caos Criativo. Sinta a energia subir. -
Gnose:
Quando a música atingir o ponto mais intenso, segure o papel com o sigilo. Mentalize a frase. Dance. Bata os pés. Repita mentalmente: "Abracadabra, eu crio porque desejo." -
Entrega:
Queime o papel na chama da vela com cuidado. Veja o sigilo se dissolver. Sinta que foi entregue ao Caos. -
Banimento simbólico:
Apague a vela. Diga: "Que o Caos leve, que o Caos traga. Eu danço com o Universo."
Considerações Finais
Não precisamos de templos medievais, grimórios em couro ou espadas cerimoniais para fazer magia. Precisamos de intenção, estímulo simbólico e foco. Em um mundo moldado por estética e performance, a arte é linguagem mágica.
Lady Gaga, consciente ou não, torna-se um canal para aquilo que Alan Moore chama de "hiper-sigilo" — a obra que contém dentro de si uma realidade alternativa vibrando em potência.
O caos é a matéria-prima do mago. A arte é a linguagem. E o desejo é a centelha.
Use tudo. Crie tudo. Queime tudo. E dance.
Referências:
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Carroll, Peter J. Liber Null & Psychonaut. Weiser, 1987.
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Hine, Phil. Prime Chaos: Adventures in Chaos Magic. New Falcon, 1993.
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Hine, Phil. Condensed Chaos. New Falcon, 1995.
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Moore, Alan. Promethea, Vol. 1–5. America's Best Comics.
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Semple, Grant Morrison. Pop Magic! (2004).
Zahir Almyst
Mago do Caos, tarólogo e condutor de rituais de realinhamento arquetípico
"Que o caos seja teu palco, e teu intento a tua dança."

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