A ideia de anjos como seres intermediários remonta a culturas muito antigas. No antigo Oriente Próximo, várias tradições já falavam de mensageiros ou seres celestiais servindo aos deuses. Por exemplo, em Mesopotâmia, mitos sumério-acadianos mencionam seres alados e mensageiros divinos. O termo semítico mal’āk (que em hebraico veio a significar anjo) originalmente significava mensageiro tanto humano quanto sobrenatural (). Os antigos sumérios acreditavam em uma hierarquia de deuses alados, como os Anunnaki, que às vezes são descritos como as primeiras entidades angelicais da história (From Sumer to Abraham: The Story of the Angels). Imagens mesopotâmicas retratam figuras aladas (como lamassu ou apkallu, sábios antediluvianos) protegendo reis e cidades, cumprindo funções semelhantes às de anjos guardiões. Estudos comparativos sugerem, inclusive, que o mito judaico posterior dos Vigilantes (anjos caídos mencionados no Livro de Enoque) foi influenciado pelos apkallu mesopotâmicos ((PDF) On the Origin of Watchers: A Comparative Study of the Antediluvian Wisdom in Mesopotamian and Jewish Traditions) – sábios alados antediluvianos que, em certas narrativas, já eram vistos como perigosos ou demoníacos, prefigurando a ideia de anjos rebeldes.
À medida que culturas interagiam, essas ideias evoluíram. Persas e Iranianos antigos (Zoroastrismo) desenvolveram uma angelologia estruturada que possivelmente influenciou os hebreus. O profeta Zaratustra (c. 600 AEC) ensinou sobre seres celestiais servindo ao Deus supremo (Ahura Mazda). Havia três classes: os Amesha Spenta (semelhantes a arcanjos, espíritos imortais benevolentes), os Fravashi (espíritos guardiões pessoais) e inúmeros outros Yazatas (divindades dignas de veneração, às vezes equiparados a anjos menores) (From Sumer to Abraham: The Story of the Angels). Essa hierarquia zoroastriana de espíritos do bem guarda forte semelhança com as hierarquias de anjos desenvolvidas posteriormente no Judaísmo e Cristianismo (From Sumer to Abraham: The Story of the Angels). Não por acaso, foi durante e após o Exílio Babilônico (século VI AEC), quando os judeus estiveram em contato com religiões mesopotâmicas e persas, que sua angelologia floresceu. Textos bíblicos pós-exílicos e apocalípticos (como Daniel e Enoque) apresentam abundantes aparições de anjos como mensageiros e protetores de Israel (), algo menos enfatizado nos períodos anteriores. Em resumo, as noções de anjos hebraicos se alimentaram de motivos do Oriente Próximo Antigo, adaptando mensageiros divinos de Canaã, Babilônia e Pérsia ao contexto monoteísta israelita ().
Anjos nas Tradições Abraâmicas (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo)
No Judaísmo bíblico, os anjos são tradicionalmente vistos como mensageiros de Yahweh enviados para orientar ou salvar o povo. Eles frequentemente aparecem de forma humana (por exemplo, aos patriarcas) ou incorporados em elementos naturais (um anjo em uma sarça ardente, colunas de nuvem e fogo, etc.) (). Não há uma descrição física única – às vezes são indistinguíveis de homens comuns, noutras assumem formas sobrenaturais. Conceitos como Querubins e Serafins também surgem: os Querubim guardavam lugares sagrados (como o Éden ou a Arca da Aliança) e eram imaginados como criaturas compostas (combinações de humanos e animais alados) (From Sumer to Abraham: The Story of the Angels); já os Serafim são descritos como seres flamejantes de seis asas que circundam o trono divino (From Sumer to Abraham: The Story of the Angels). A teologia judaica pós-bíblica (e mística, como na Cabala medieval) expandiu essas ideias, classificando miríades de anjos em esquemas hierárquicos complexos – embora sempre como servidores do Deus único, não deuses independentes.
No Cristianismo, herdando a base judaica, os anjos mantêm o papel de mensageiros (o termo anjos vem do grego ángelos, “mensageiro”). A influência helenística e a sistematização teológica levaram à formulação de coros angélicos. No século VI, Pseudo-Dionísio descreveu Nove Coros de Anjos em três hierarquias (Serafins, Querubins e Tronos na mais alta; Dominações, Virtudes e Potestades na intermediária; Principados, Arcanjos e Anjos na mais baixa) (From Sumer to Abraham: The Story of the Angels) (From Sumer to Abraham: The Story of the Angels). Essa estrutura foi amplamente aceita na teologia cristã medieval (Tomás de Aquino, por exemplo, discorre sobre as funções de cada coro). Importante notar que, no Cristianismo, os anjos nunca são adorados – são reverenciados como mensageiros divinos, e qualquer prática de culto a anjos foi condenada pela Igreja. Já no Islamismo, os anjos (em árabe malāk, plural malāʾika) também desempenham papéis vitais – Jibril (Gabriel) revela o Alcorão a Maomé, Mikail (Miguel) controla forças da natureza, etc. – porém sempre subordinados estritamente à vontade de Allah. Em suma, nas fés abraâmicas tradicionais os anjos são servidores espirituais do Deus único, desprovidos de vontade própria contrária (exceto os caídos/rebeldes, como Lúcifer em certas leituras cristãs).
Entretanto, na contemporaneidade, observa-se um fenômeno curioso: muitas pessoas acreditam ou trabalham espiritualmente com “anjos” sem necessariamente seguirem uma religião formal. Acadêmicos notam que a crença em anjos muitas vezes é promovida independentemente da crença em Deus (). Ou seja, há quem busque conforto ou orientação em anjos – vistos como seres de luz, guardiões ou guias – sem aderir às obrigações ou dogmas de uma fé institucionalizada (). Esse movimento moderno (presente em vertentes da Nova Era, espirituais independentes e até em filmes/literatura pop) destaca anjos como forças benéficas universais, quase autônomas, dissociadas de um contexto religioso rígido. É exatamente essa independência conceitual que abre espaço para abordagens mágicas e ocultistas não tradicionais, como veremos a seguir.
Anjos na Magia e no Ocultismo Ocidental
Desde a Antiguidade Tardia e Idade Média, ocultistas e místicos buscaram trabalhar magicamente com anjos, integrando-os em rituais e sistemas esotéricos. Diferentes tradições ocultistas catalogaram anjos específicos com nomes, selos, funções e símbolos, muitas vezes combinando conceitos abraâmicos com astrologia, alquimia e magia cerimonial. Aqui exploramos três sistemas influentes: os 72 anjos cabalísticos, os 7 anjos olímpicos e os anjos enoquianos. Em cada caso, veremos suas origens, características e papéis conforme entendidos nessas tradições.
Os 72 Anjos Cabalísticos (Shem ha-Mephorash)
Na tradição cabalística judaica e hermética, destaca-se a doutrina dos 72 anjos do Nome Divino, conhecidos como Shem ha-Mephorash (do hebraico “Nome Explícito”). Segundo a lenda, esses 72 nomes angelicais derivam de uma fórmula nas Escrituras: três versículos consecutivos do Êxodo (Ex 14:19-21), cada um com 72 letras, que combinados boustrofedonicamente (isto é, alternando a ordem) geram 72 conjuntos de 3 letras (Shem HaMephorash - Wikipedia). Aos antigos cabalistas, cada um desses trigramas representava um nome de Deus; ocultistas renascentistas como Johannes Reuchlin e Blaise de Vigenère adicionaram os sufixos -el (“de Deus”) ou -iah (“do Senhor”) a cada trigrama, formando nomes angelicais como Vehuiah, Jeliel, Sitael, etc. (Shem HaMephorash - Wikipedia). Assim surgiram os 72 anjos, vistos como emanados do Nome Divino de 72 letras e portadores de diferentes virtudes.
Cada um dos 72 anjos governa um aspecto específico da criação ou da alma humana – são frequentemente associados a atributos como sabedoria, amor, cura, proteção, justiça, etc. Por exemplo, o primeiro anjo Vehuiah é tradicionalmente invocado por qualidades de vontade e sabedoria divina, Sachiel (ou Sitael) para proteção contra adversidades, Lecabel para inspiração artística, e assim por diante (as atribuições variam conforme o autor). Eles também foram vinculados às astrologia: cada anjo rege 5 graus do zodíaco (uma quinância), de modo que 6 anjos correspondem a cada signo (). Em par, um anjo diurno e um noturno influenciam cada decanato (10 graus) do zodíaco (). Isso conecta os 72 anjos às 36 decanatos tradicionais e às influências planetárias das horas do dia e da noite.
No ocultismo ocidental, especialmente a partir do Renascimento, os 72 anjos cabalísticos ganharam papéis importantes em grimórios e rituais. Ocultistas como Thomas Rudd (século XVII) ensinaram que esses anjos poderiam ser evocados para contrabalançar os 72 espíritos demoníacos da Goetia (Shem HaMephorash - Wikipedia) (Shem HaMephorash - Wikipedia). De fato, em algumas versões da Chave Menor de Salomão, cada demônio goético é colocado sob o domínio de um dos 72 anjos, servindo como força coercitiva do bem para controlá-lo (Shem HaMephorash - Wikipedia). Ordens esotéricas como a Hermetic Order of the Golden Dawn também incorporaram os nomes do Shem ha-Mephorash em sua magia – S. L. MacGregor Mathers listou os 72 nomes em correspondência com os 72 quinários do zodíaco e com as 12 tribos de Israel, integrando-os em talismãs e escalas de cor. Em resumo, dentro da Cabala prática e magia cerimonial, esses anjos são vistos como potências divinas específicas, ferramentas para o mago alcançar determinados fins (cura, proteção, conhecimento, etc.) através da invocação dos nomes secretos de Deus.
Vale ressaltar que, apesar de sua origem judaica, o uso mágico dos 72 anjos muitas vezes extrapola o contexto religioso estrito. Místicos cristãos medievais e renascentistas os convocavam em nome de Jesus ou da Trindade, enquanto ocultistas modernos podem invocá-los com fórmulas mais universalistas. A essência, porém, permanece: ao vibrar ou meditar sobre os nomes sagrados, o praticante busca alinhar-se com aquela força angélica correspondente, trazendo sua influência para a vida prática ou espiritual.
Os Anjos Olímpicos (Espíritos Planetários do Arbatel)
“Anjos Olímpicos” é o nome dado, em algumas tradições ocultas, aos sete espíritos governantes dos planetas clássicos, conforme descrito no grimório renascentista Arbatel de Magia (pub. 1575). O Arbatel os chama de Olympick Spirits – Espíritos Olímpicos – associados ao firmamento e às estrelas, que “governam as operações do mundo” (Olympic Spirits – OCCULT WORLD). Esses sete grandes príncipes celestiais regem 196 províncias do universo (divididas de forma desigual entre si) e supervisionam tanto processos naturais quanto feitos mágicos ligados às suas esferas (Olympic Spirits – OCCULT WORLD). Cada espírito está ligado a um planeta e possui ofícios, poderes e atribuições específicas (Olympic Spirits – OCCULT WORLD). São eles:
- Aratron – relacionado a Saturno. Governa 49 províncias. Ensina Alquimia, Magia e Medicina, concede o poder da invisibilidade e da transmutação (pode transformar carvão em tesouro, e vice-versa, e seres vivos em pedra). Confere familiares espirituais, fertilidade e longa vida (Olympic Spirits – OCCULT WORLD). Deve ser evocado no sábado, na hora de Saturno, usando seu sigilo característico.
- Bethor – relacionado a Júpiter. Rege 42 províncias. Atua sobre assuntos de riqueza e expansão. Responde rapidamente quando chamado, traz familiares benéficos e pode prolongar a vida humana até 700 anos (se for da vontade de Deus). Ajuda a encontrar grandes tesouros e reconcilia os espíritos do ar com os humanos, facilitando respostas verdadeiras em adivinhação, transporte de pedras preciosas e preparação de remédios milagrosos (Olympic Spirits – OCCULT WORLD).
- Phaleg – relacionado a Marte. Rege 35 províncias. É um espírito de natureza marcial, especialista em assuntos militares. Favorece soldados e oficiais, auxiliando em estratégias e na ascensão na carreira militar (Olympic Spirits – OCCULT WORLD). Evoca-se tradicionalmente nas horas de Marte para obter vigor, coragem e sucesso em conflitos.
- Och – relacionado ao Sol. Rege 28 províncias. Espírito associado à perfeição e abundância. Concede saúde perfeita e estende a vida até 600 anos, provê excelentes familiares e é mestre supremo em Alquimia – pode transmutar qualquer substância nos mais puros metais ou joias preciosas (Olympic Spirits – OCCULT WORLD). Och distribui ouro e riqueza (“um tesouro inesgotável”) e garante honra: quem portar seu selo será “como um deus” perante reis (Olympic Spirits – OCCULT WORLD).
- Hagith – relacionado a Vênus. Rege 21 províncias. Espírito das artes venéreas e da beleza. Confere servos fiéis, transforma cobre em ouro e ouro em cobre, e torna belo e gracioso quem tiver seu caráter/talismã (Olympic Spirits – OCCULT WORLD). É invocado para assuntos de amor, prazer e encantamento pessoal.
- Ophiel – relacionado a Mercúrio. Rege 14 províncias. Espírito das artes e conhecimentos. Ensina todas as artes e ciências, inclusive a capacidade de converter instantaneamente mercúrio (azougue) na Pedra Filosofal (Olympic Spirits – OCCULT WORLD). Também concede espíritos familiares e auxilia em comunicação e escrita.
- Phul – relacionado à Lua. Rege 7 províncias. Espírito lunar associado à prata e à cura. Transmuta todos os metais em prata, cura hidropisia e fornece espíritos aquáticos que servem visivelmente ao mago (Olympic Spirits – OCCULT WORLD). Pode prolongar a vida até 300 anos. É invocado em trabalhos de cura, intuição e contatos com o elemento água.
Esses sete “anjos planetários” do Arbatel combinam referências pagãs planetárias com a moldura cristã. O manual enfatiza que não é preciso pronunciar perfeitamente os nomes – importa mais conhecer suas funções e chamá-los por seus ofícios (Olympic Spirits – OCCULT WORLD). A evocação recomendada envolve orações a Deus pedindo que envie o espírito desejado “para instruir e realizar o que for pedido, sempre subordinado à vontade divina” (Olympic Spirits – OCCULT WORLD). Por exemplo, para evocar Bethor, rezar a Deus e solicitar “o espírito de Júpiter” para revelar conhecimentos ou trazer riquezas, terminando “não seja feita a minha vontade, mas a Tua” (Olympic Spirits – OCCULT WORLD). Isso reflete a mentalidade do mago renascentista cristão: trabalhar com anjos/espíritos dentro de um contexto devoto, garantindo proteção e legitimidade pela autoridade divina.
No entanto, ocultistas modernos reinterpretaram esses espíritos olímpicos de formas mais livres. Muitos os tratam simplesmente como inteligências planetárias ou forças arquetípicas, que podem ser acionadas através de sigilos, meditações astrológicas ou outros métodos menos litúrgicos. Ainda assim, suas descrições clássicas (como as acima) orientam os praticantes quanto às áreas de atuação de cada um – seja atrair prosperidade com Och, buscar conhecimentos com Ophiel ou realização amorosa com Hagith, por exemplo. Em termos de manifestações, relatos em grimórios sugerem que esses espíritos podem se apresentar em visão conforme a natureza planetária (p.ex., Aratron assumindo forma de ancião sábio ou gênio da terra, Phaleg como um guerreiro imponente, etc.), mas na prática ritual é mais comum o mago perceber sua influência através de intuições, sonhos ou mudanças sutis nos eventos correspondentes ao campo de cada planeta.
Os Anjos Enoquianos (Sistema de John Dee)
Entre os sistemas mágicos de anjos, o Enoquiano é provavelmente o mais complexo e singular. Desenvolvido no final do século XVI pelo mago e matemático inglês John Dee e seu médium Edward Kelley, trata-se de um conjunto de revelações que os dois acreditavam ter recebido de anjos em sucessivas sessões de escrying (visões em cristal). Os anjos teriam entregue a Dee uma linguagem angelical inteiramente nova – o Enoquiano – com um alfabeto e gramática próprios, além de séries de tabelas de letras e “chaves” (conjurações) mágicas (Enochian magic - Wikipedia) (Enochian magic - Wikipedia). Segundo Dee, tudo isso vinha diretamente dos mensageiros celestiais, e permitiria ao ser humano acessar segredos ocultos e conhecimento espiritual profundo, contidos em um livro místico chamado Liber Loagaeth ou “Livro da Palavra de Deus” (Enochian magic - Wikipedia).
O sistema enoquiano pode ser imaginado como uma angelologia paralela à bíblica, porém estruturada magicamente. Em vez de anjos conhecidos como Gabriel ou Miguel, temos uma miríade de nomes estranhos formados pelas letras enoquianas dispostas em complexos quadrantes. Os componentes principais do sistema incluem:
- As 48 Chaves ou Chamados Enoquianos: invocações em língua enoquiana que servem para chamar diferentes grupos de entidades. Essas chaves foram ditadas letra por letra pelos anjos a Dee/Kelley. Ao entoá-las, o mago abre portais para diversas regiões espirituais (Enochian magic - Wikipedia).
- A Grande Tábua (Great Table) e os Quatro Watchtowers (Torres de Vigia): trata-se de um tabuleiro dividido em quatro quadrantes cheios de letras, cada quadrante associado a um elemento (Terra, Ar, Água, Fogo) e a uma direção cardinal. De cada quadrante derivam-se nomes de anjos hierárquicos – reis, príncipes e inúmeras sub-inteligências elementais. Esses são às vezes chamados de anjos das Torres de Vigia, guardiões dos elementos e das direções. Por exemplo, do quadrante de Fogo extrai-se o nome do “Rei” BATAIVAH e de seis outros Senhores, entre muitos outros nomes. Esses anjos enoquianos elementais regeriam tanto aspectos materiais (das qualidades do elemento em questão) quanto espirituais (facetas da alma e do universo ligadas a aquele elemento).
- As 30 Aéthyrs (ou Æthires): esferas ou planos de existência, concêntricos do mundo material até o Divino. O mais baixo (30º) corresponde ao nível da Terra e o mais alto (1º) ao estado mais próximo de Deus. Cada Aethyr possui Governadores angelicais específicos – ao todo, 91 Governadores regendo diferentes partes do cosmos (Enochian magic - Wikipedia). Por exemplo, o primeiro Aethyr (TEX) tem 3 governadores, o segundo (RAR) outros 3, etc., totalizando 91 nomes. Ao usar as chaves enoquianas de número 19 a 30, o mago “abre” cada Aethyr e pode contatar os anjos e visões correspondentes. Esses anjos são ditos portadores de enormes conhecimentos e poder dentro de seus reinos específicos (Enochian magic - Wikipedia).
Trabalhar com anjos enoquianos tipicamente envolve rituais cerimoniais elaborados. Tradicionalmente, um mago traça um círculo de proteção, dispõe a Tábua de União (símbolo central enoquiano) e as quatro Tábuas/Torres nos quadrantes, e recita as Chaves na língua original para chamar as inteligências desejadas. John Dee registrou extensamente as aparições e diálogos com anjos: frequentemente, Kelley via os anjos aparecendo no cristal ou “espelho” negro, às vezes como humanos (uma belíssima mulher chamada Madimi, ou anjos com vestes e insígnias) e outras vezes como figuras abstratas ou geométricas. As mensagens vinham codificadas e frequentemente místicas.
No século XIX, a Ordem Hermética da Aurora Dourada (Golden Dawn) recuperou os diários de Dee e integrou a magia enoquiana em seu sistema. Isso popularizou o trabalho com esses anjos entre ocultistas do século XX. Aleister Crowley, por exemplo, realizou em 1909 uma série famosa de explorações visionárias dos 30 Aethyrs, registradas em The Vision and the Voice. Nos relatos dele, os anjos enoquianos apresentavam visões grandiosas e às vezes aterradoras, com simbologia arcana que influenciou a filosofia Thelêmica.
Um ponto interessante é que muitos praticantes descrevem a “energia” enoquiana como peculiar – intensa, impessoal e diferente da atmosfera mais “devocional” dos anjos tradicionais. Discussões modernas sugerem que os anjos enoquianos não se parecem com os anjos judaico-cristãos usuais, mas sim com forças mais cruas, às vezes quase elementais ou “alienígenas” (What are the Enochian Spirits, really? : r/occult - Reddit). Apesar do caráter inicialmente cristão das invocações de Dee (ele sempre orava a Deus e via seu trabalho como uma continuidade da magia divina), hoje até mesmo magos não cristãos ou chaotes (praticantes da magia do caos) usam o sistema enoquiano. Eles o abordam como um conjunto de símbolos e entidades a ser explorado, sem necessariamente aderir à teologia por trás. Por exemplo, podem entoar as Chaves puramente pela vibração sonora e efeito psíquico, esperando induzir visões ou contatos, independentemente de acreditar literalmente em anjos.
Em termos de função e manifestação, os anjos enoquianos são vistos como guardiões dos componentes fundamentais da existência (os elementos, os pontos cardeais, as esferas celestes). Invocá-los pode, segundo relatos, produzir desde insights intelectuais profundos até experiências visionárias de transformação pessoal. Seus nomes e sigilos servem como chaves para diferentes “portais” da mente/cosmos. Diferente dos 72 anjos cabalísticos (muito associados a pedidos concretos, como amor, saúde, etc.), a magia enoquiana tende a visar exploração espiritual, aquisição de sabedoria oculta e mudanças na consciência. É uma jornada mística tanto quanto mágica, na qual as manifestações tipicamente ocorrem em estado de transe ou visão – o praticante pode sentir presenças, ouvir vozes, visualizar cenários simbólicos – mais do que fenômenos físicos externos.
Práticas Mágicas com Anjos – Abordagens Contemporâneas e Magia do Caos
Diante de toda essa tradição, surge a pergunta: é necessário seguir as crenças cristãs/abraâmicas para trabalhar magicamente com anjos? Ou podemos abordá-los como entidades independentes, de forma não dogmática, como faz a Magia do Caos? A resposta, segundo muitos praticantes modernos, é que anjos podem, sim, ser trabalhados fora de contextos religiosos convencionais. A história recente mostra pessoas invocando anjos em contextos espiritualistas, esotéricos e até pop, sem vínculo com igrejas – confirmando que a crença em anjos pode ser desvinculada da crença em um Deus específico (). Dentro da Magia do Caos, essa separação é ainda mais explícita: caos magos encaram sistemas de crença como ferramentas intercambiáveis, adotando e descartando paradigmas conforme a utilidade (Chaos magic - Wikipedia). Assim, um chaos magick practitioner pode hoje evocar um anjo cabalístico num ritual, amanhã um deus pagão em outro, sem ver contradição – pois “a crença é um instrumento” e todas essas entidades são, em última análise, partes de um grande repertório simbólico disponível ao mago (Chaos magic - Wikipedia) (Chaos magic - Wikipedia).
Abordagem Não Dogmática: Fora do contexto devocional, anjos são muitas vezes tratados como formas arquetípicas ou energias com as quais se pode interagir. O mago não precisa se considerar “submisso” a um panteão abraâmico; ele pode encarar o anjo como um aliado mágico ou até como uma faceta de si mesmo a ser ativada. Por exemplo, em círculos de magia do caos, é comum fazer sigilos ou servitores personalizados – e anjos cabalísticos podem ser abordados quase como servidores prontos, bastando o mago sintonizar seu sigilo (nome em hebraico) e intento. Alguns praticantes, contudo, relatam que anjos têm uma presença distinta e “objetiva” – mesmo que você não creia neles previamente, ao chamar Mikael ou Raphael, sente-se uma inteligência externa respondendo. Esse debate (anjos como entidades reais vs. construções psicológicas) existe dentro da própria comunidade ocultista, incluindo chaos magicians. Há caotes estritamente psicologistas que tratam qualquer espírito como um aspecto da mente, e há espiritualistas que veem os anjos como tão reais quanto qualquer deus. De qualquer modo, a necessidade de crença prévia não é absoluta: já foi apontado que hoje até pessoas não religiosas sentem-se confortáveis em “falar de anjos” e buscar sua ajuda, talvez porque anjos oferecem conforto sobrenatural sem exigirem os dogmas de um Ser Supremo (). Em outras palavras, é possível aproximar-se magicamente de anjos adotando-se apenas aquela parte útil do paradigma (o anjo em si) e não todo o pacote teológico.
Métodos Mágicos Modernos: As práticas para evocar ou invocar anjos variam desde rituais tradicionais formais até abordagens minimalistas estilo caos. Na magia cerimonial clássica, seguir-se-ia instruções de grimórios: purificações, círculos, velas, incenso, entoação de salmos ou orações em nome de Deus, e uso de sigilos/símbolos próprios do anjo. Por exemplo, um magista salomônico ao buscar auxílio do anjo Vehuel (um dos 72) recitaria seu salmo correspondente, usar o nome divino associado, pedir permissão a Deus e então chamar Vehuel para manifestar-se na pedra de cristal, finalizando com licença e louvor a Deus – tudo extremamente carregado de elementos abraâmicos. Já um praticante da magia do caos pode simplificar enormemente: poderia desenhar o sigilo/charakter do anjo (por exemplo, o selo de Aratron do Arbatel) em papel, entrar em estado meditativo (gnose), e vocalizar o nome do anjo visualizando-o atender ao chamado – sem recorrer a qualquer autoridade superior, apenas confiando na própria vontade e imaginação guiada. Caos magos também gostam de misturar paradigmas: alguém poderia invocar um anjo cabalístico usando fórmulas de Enoquiano, ou evocar um anjo enoquiano dentro de um círculo de Goetia, apenas para experimentar resultados diferentes. Essa liberdade pode parecer irreverente, mas está no cerne do método do caos: a experimentação e a crença temporária.
Rituais e Experiências Relatadas: Várias obras contemporâneas trazem rituais com anjos adaptados a um público não dogmático. Por exemplo, ocultistas como Damon Brand e outros autores da chamada “Gallery of Magick” publicaram manuais para trabalhar com os 72 anjos apenas com visualizações e palavras de poder simples, sem requerer afiliação religiosa. Há também quem aplique técnicas de sigilização próprias do caos: transformando o nome do anjo em um sigilo gráfico pessoal e carregando-o energeticamente. Um caso interessante é o do mago Janue Mirachi, que escreveu “Chaos Magick of the Working Angels” (2021) descrevendo rituais práticos para acionar anjos do Shem ha-Mephorash em grupo, visando proteção e outros objetivos. Ele enfatiza ter testado esses rituais com sucesso, e que os resultados foram satisfatórios sem necessidade de elaborados aparatos cerimoniais – bastando a intenção focada e alguns passos simples (Chaos Magick of The Working Angels: Protection: Mirachi, Janue: 9798727955802: Amazon.com: Books). Nas palavras dele: “O objetivo foi fazer diferentes anjos trabalharem juntos para resolver problemas específicos... A magia foi extensivamente testada e os resultados são bastante satisfatórios, considerando que não é muito difícil nem requer muitas ferramentas cerimoniais” (Chaos Magick of The Working Angels: Protection: Mirachi, Janue: 9798727955802: Amazon.com: Books). Isso ilustra bem a abordagem contemporânea: pragmática, orientada a resultados, sem excesso de formalismo.
Em termos de experiências pessoais, praticantes descrevem uma gama de fenômenos ao trabalhar magicamente com anjos. Alguns relatam sensação de presença benevolente e poderosa durante a invocação – por exemplo, ao entoar o nome do arcanjo Miguel, sentem uma “corrente” de coragem e proteção no círculo. Outros mencionam obter insights, mensagens em sonhos ou sincronicidades nos dias seguintes ao ritual, interpretadas como resposta angelical. No contexto enoquiano, as experiências podem ser visões bastante vívidas: um caos mago compartilhando seu relato no Reddit comentou que os anjos enoquianos se mostraram “diretos, sem emoção e em grande parte dóceis, respondendo com símbolos e imagens” durante suas scryings (What is your experience of Enochian? : r/occult - Reddit). Ou seja, ao invés de ouvir uma voz tonitruante, ele via símbolos visuais que intuitivamente transmitiam a mensagem – uma forma de manifestação psíquica. Por outro lado, há alertas comuns no meio ocultista sobre trabalhar com anjos sem preparação adequada: mesmo fora do dogma, é recomendável ter disciplina mental, proteção e respeito, pois essas forças podem ser intensas. Alguns relatam que a energia de certos anjos (especialmente enoquianos) trouxe mudanças profundas e até perturbações emocionais temporárias – o que se interpreta como um processo de ajuste à frequência elevada dessas inteligências.
Magia do Caos e Anjos como Deuses Independentes: A pergunta se anjos podem ser tratados como “divindades independentes” esbarra numa questão filosófica: se você os trata como tal, eles funcionarão como tal para você. Na prática da magia do caos, é perfeitamente possível dirigir-se a um anjo como se fosse um deus autônomo, oferecendo-lhe energia (na forma de atenção, devoção temporária, oferendas simbólicas) em troca de auxílio, exatamente como se faz com um deus de qualquer panteão. A diferença é que, conceitualmente, o mago sabe que essa “independência” é uma construção útil naquele momento – amanhã, se adotar outro paradigma, poderá reintegrar o anjo no monoteísmo ou considerá-lo apenas um arquétipo junguiano. Essa fluidez é característica do caos. Não é necessário acreditar na teologia cristã para evocar Miguel; contudo, alguns chaos magicians relatam que temporariamente adotam a crença durante o ritual para aumentar a eficácia (chamado de “invocar a autoridade de Yahweh” por conveniência), descartando-a depois. Outros preferem evocar Miguel de igual para igual, ou vendo-o como expressão de força marcial universal. Ambas as formas têm relatos de sucesso – indicando que o fator crucial talvez seja a convicção e foco do mago no momento do rito.
Exemplos de Rituais Simples: Dentro da perspectiva não dogmática, um ritual de anjo poderia ser tão simples quanto: traçar um círculo, acender uma vela, respirar profundamente até entrar em leve transe, então repetir o nome do anjo visualizando-o. Suponha que alguém queira trabalhar com Och (espírito olímpico solar) dentro de uma estrutura de magia do caos para prosperidade. Poderia fazer assim: num domingo ao meio-dia, desenha o sigilo de Och, coloca sobre um prato com uma moeda de ouro ou algo que simbolize riqueza, então entra em gnose (pela fixação olhar na chama da vela ou entoando um mantra solar). No auge da concentração, clama mentalmente: “Och, espírito do Sol, eu te evoco. Implanto em ti a forma de um poderoso aliado independente. Concede-me tua graça, traz abundância e sucesso. Que assim seja.” Visualiza intensamente um sol dourado envolvendo o sigilo e sente a presença. Depois, encerra com “Vai em paz, cumpra o que te peço, obrigado”. Este pequeno rito não menciona Deus nenhum, não segue protocolo goético ou cabalístico estrito, mas para um chaos mage pode ser eficaz pois ele mobilizou os símbolos de Och (dia/ hora de Sol, sigilo, correspondências) somados à força da intenção. Relatos informais atestam ganhos financeiros inesperados ou oportunidades surgindo após tais evocações – o praticante interpreta como resposta de Och, validando aquela relação direta com o “deus-anjo” olímpico.
Em contraste, alguém mais tradicionalista ficaria alarmado: onde estão as orações de proteção? E se não era Och mas um demônio enganador? – Essas preocupações refletem o paradigma dogmático. O chaos magician confia na sua banimento genérico depois (ele pode simplesmente bater palmas e visualizar energia expulsando qualquer resquício indesejado, ou fazer um rápido Ritual do Pentagrama caso também conheça técnicas clássicas). De fato, muitos praticantes ecléticos fazem um mix de caos e tradição: utilizam banimentos da Golden Dawn (com nomes de arcanjos nos quadrantes: Miguel, Gabriel, Rafael, Uriel) para criar um espaço protegido, mas ao trabalhar com o anjo em si agem de forma livre. Isso mostra que não há necessidade de se limitar – pode-se respeitar os anjos e ao mesmo tempo inovar nos métodos.
Conclusão da Abordagem: Trabalhar magicamente com anjos evoluiu de uma prática estritamente teúrgica e religiosa para um campo aberto, onde crentes e não crentes igualmente os procuram. Não é obrigatório seguir a doutrina abraâmica para contatar anjos, embora compreender o pano de fundo histórico-cultural deles ajude a acessar seus símbolos com mais profundidade. Anjos, na visão ocultista atual, podem ser entendidos como padrões de energia cósmica ou psicológica prontos a interagir conosco – quer os vejamos como emissários de Yahweh, arquétipos do inconsciente coletivo ou “deuses independentes” no altar do mago. O importante, ressaltam fontes tanto acadêmicas quanto esotéricas, é a seriedade e clareza de intenção ao lidar com essas potências. Como resumiu um estudioso: hoje há um “renascimento” do interesse angelológico fora das igrejas, em que as pessoas buscam o auxílio de anjos sem os correlatos deveres para com um Ser Supremo (). Isso permite uma espiritualidade flexível, onde os anjos podem compor um repertório mágico pessoal, lado a lado com outras entidades, conforme a necessidade e crença do momento.
Referências:
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- Hurley, Michael D. “Angels and Monotheism.” Cambridge Elements (Cambridge UP, 2021) () ().
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- Pharos Journal of Theology (Special Edition 1, 2021). “Portraits of ‘angels’: Some Ancient Near Eastern and Old Testament perspectives” () ().
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- Carroll, Peter J. Liber Null & Psychonaut (1987) – princípios da magia do caos (belief as a tool) (Chaos magic - Wikipedia).
- Experiências de praticantes (compiladas de fóruns como Reddit r/occult e r/chaosmagick) – relatos sobre manifestações de anjos enoquianos (What is your experience of Enochian? : r/occult - Reddit).

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