Introdução
No pensamento teológico judaico posterior, YHWH (o Tetragrama sagrado) é geralmente concebido como um ser absolutamente espiritual, incorpóreo e invisível. No entanto, o Tanakh (Bíblia Hebraica) contém diversas passagens em que Deus é descrito de forma antropomórfica – isto é, com características, forma ou ações humanas ou físicas. Essas descrições concretas contrastam com a ideia de uma divindade puramente etérea. Neste relatório, examinaremos profundamente essas passagens, desde a Torá (Pentateuco) até os Profetas (Nevi’im) e Escritos (Ketuvim), bem como referências em textos apócrifos judaicos, analisando a linguagem original hebraica e eventuais divergências textuais (entre o Texto Massorético, a Septuaginta grega e manuscritos de Qumran). Também discutiremos as implicações teológicas dessas representações antropomórficas de YHWH, incluindo como tradições posteriores lidaram com elas.
YHWH Antropomórfico na Torá (Pentateuco)
Deus Caminhando e Aparecendo como Homem (Gênesis)
Logo nos primeiros capítulos do Gênesis encontramos linguagem antropomórfica. Após o pecado original, Adão e Eva “ouviram o ruído de YHWH Deus que passeava pelo jardim, à brisa do dia”. O verbo hebraico usado em Gênesis 3:8, mithalêk (מִתְהַלֵּךְ, forma hitpa’el de halakh, “andar”), sugere Deus caminhando de forma muito concreta. A imagem é notável: Deus é apresentado andando no Éden, implicando pernas e pés – uma representação bem física de Sua presença.
Mais adiante, em Gênesis 18, YHWH aparece como um viajante que visita Abraão. O texto diz: “Apareceu o SENHOR a Abraão nos carvalhais de Manre... [Abraão] levantou os olhos, olhou, e eis três homens de pé em frente dele”. Em hebraico, “YHWH apareceu” (וַיֵּרָא אֵלָיו יְהוָה, va-yera elav Adonai) indica uma manifestação visível de Deus. Abraão trata um desses homens como seu Senhor – a narrativa dá a entender que um deles é o próprio YHWH em forma humana acompanhada de dois anjos. A manifestação de Deus como um viajante humano que conversa, come e caminha com Abraão (Gên. 18:1–8,16–22) é um exemplo forte de antropomorfismo narrativo no Tanakh.
Ainda em Gênesis, há o famoso episódio em que Jacó luta com uma entidade divina. Em Gênesis 32, um “homem” misterioso luta corpo a corpo com Jacó durante a noite. Ao terminar, Jacó declara: “Vi a Deus face a face, e, todavia, minha vida foi poupada”. O lugar recebe o nome de Peniel (Peni’el, פְּנִיאֵל), literalmente “face de Deus”, pois Jacó entendeu ter lutado com o próprio Deus ou seu anjo. Esse relato atribui a YHWH forma e força física humanas – Ele (ou seu anjo) toca a coxa de Jacó e a desloca, e Jacó consegue inclusive agarrar-se a Ele (Gên. 32:24–30). A expressão hebraica empregada “פנים אל פנים” (panim el panim, “face a face”) reforça a ideia de um encontro direto e visual com a face divina, algo paradoxal na teologia bíblica, mas atestado no texto.
Teofanias no Êxodo – “Pés”, “Mão”, “Face” e “Costas” de YHWH
O livro do Êxodo fornece descrições talvez ainda mais vívidas de YHWH em forma visível. Quando Moisés e os anciãos de Israel sobem ao Monte Sinai, ocorre uma visão teofânica marcante: “Eles viram o Deus de Israel. Debaixo de seus pés havia como um pavimento de safira, tão puro como o próprio céu”. Aqui Deus é descrito como tendo pés apoiados sobre algo semelhante a uma pedra de safira translúcida (Êxodo 24:10). O texto continua dizendo que Deus não estendeu Sua mão contra os anciãos e que eles O viram e participaram de uma refeição sagrada na Sua presença (Ex 24:11) – sugestão de uma experiência real e visual de Deus em forma humana (já que menciona mão e pés de YHWH). A menção dos “pés” de Deus é explícita e notável, pois sugere uma figura divina com membros físicos.
Outro episódio-chave é o diálogo íntimo entre YHWH e Moisés. Êxodo 33:11 relata que “O Senhor falava com Moisés face a face, como quem fala com seu amigo”. O termo hebraico aqui é panim el panim, o mesmo “face a face” já mencionado – uma antropomorfização forte indicando proximidade quase humana entre Deus e Moisés. Na mesma narrativa, Moisés pede para ver a glória de Deus, e YHWH responde com linguagem corporal: “Não poderás ver a minha face, porque ninguém pode ver-me e continuar vivo” (Ex 33:20). Deus então coloca Moisés numa fenda da rocha, e diz: “Quando passar a minha glória... tirarei a mão e tu verás as minhas costas, mas a minha face não se verá” (Ex 33:22–23). A descrição é extraordinariamente concreta: Deus fala de Sua “mão” cobrindo Moisés, de Suas “costas” (em hebraico achorái, אֲחֹרָי) e de Seu “rosto” ( panai, פָּנַי) que não pode ser visto. O versículo de Êxodo 33:23, por exemplo, diz: “Depois tirarei minha mão, e verás minhas costas; mas não se verá meu rosto”. Esses termos – mão, rosto, costas – são literalmente partes do corpo de Deus na narrativa, compondo uma imagem claramente antropomórfica de YHWH. A teologia judaica posteriormente interpretou essa passagem de modo alegórico (afirmando que “costas” de Deus seriam uma metáfora para compreensões parciais da divindade), porém o texto em si emprega linguagem corporal direta.
Também no Êxodo, Deus é retratado realizando ações físicas. Por exemplo, as Tábuas da Lei dadas a Moisés no Sinai foram “escritas pelo dedo de Deus” (Ex 31:18). O hebraico be’etzba Elohim (בְּאֶצְבַּע אֱלֹהִים) é literal: “com o dedo de Deus”. Esta expressão, preservada em português – “tábuas de pedra, escritas pelo dedo de Deus” – atribui a YHWH um dedo escrevendo em pedra, um ato físico. Ainda que possamos entender metaforicamente (como “pelo poder de Deus”), o texto original não evita o termo corpóreo “dedo”. Da mesma forma, a “mão poderosa” e o “braço estendido” de YHWH são mencionados repetidamente (Dt 5:15, Ex 15:6, etc.) para simbolizar Seu poder, mas usando membros humanos como figura.
“Forma de YHWH” e Visibilidade de Deus
Um ponto alto da antropomorfização no Pentateuco está em Números 12:8, quando o próprio Deus afirma o privilégio único de Moisés: “Boca a boca falo com ele, claramente, e não por enigmas; e ele vê a forma do SENHOR”. A palavra hebraica traduzida por “forma” é temunat YHWH (תְּמוּנַת יְהוָה), que significa aparência, imagem, forma visível de YHWH. Ou seja, Moisés pôde contemplar uma aparência visível de Deus. Essa declaração é impactante, especialmente considerando que Deuteronômio 4:15 enfatiza que Israel, em geral, “não viu forma nenhuma” de Deus no Sinai (uma advertência contra a idolatria). A tradição judaica conciliou esses textos dizendo que apenas Moisés, o profeta por excelência, pôde ver uma espécie de forma divina, enquanto o povo viu apenas fogo e nuvem. Ainda assim, o texto de Números 12:8 registra Deus afirmando que Moisés via Sua temunáh, Sua forma ou semblante, reforçando a noção de antropomorfismo real e não apenas metáforas abstratas. (Interessantemente, na Septuaginta grega esse verso foi suavizado: “ele contempla a glória do Senhor”, usando dóxa em vez de “forma”, possivelmente para evitar implicar que Deus tem forma física.)
Além disso, o Êxodo 24:16-17 distingue entre Deus em si e Suas manifestações: a glória de YHWH (kavod YHWH) apareceu no topo do Sinai como fogo devorador. Termos como kavod (“glória”) e Shechináh (“Presença” divina) muitas vezes são usados na Bíblia para denotar manifestações visíveis/visuais de Deus (como nuvem, fogo, luz) em vez de descrevê-Lo diretamente em forma humana. Mesmo assim, como vimos, há ocasiões em que a Bíblia não hesita em usar linguagem diretamente corporal para YHWH – Ele anda, desce, sobe, vê com olhos, escreve com dedo, estende a mão, etc.
De fato, diversos antropomorfismos “espalham-se” pelo Pentateuco e outras partes: YHWH “desce” para ver a torre de Babel (Gên. 11:5) ou para visitar Sodoma (Gên. 18:21) e depois “sobe” novamente (por ex. Gên. 17:22); a voz do Senhor é ouvida caminhando no santuário (Lev. 26:12, uma possível leitura); Ele passa pelo Egito na noite da Páscoa (Ex 12:12-13) como um ser em movimento. Tais expressões, embora possivelmente metafóricas, são “ousadas” em atribuir ações humanas a Deus. Como resume a Encyclopaedia Judaica: “Às vezes a personificação é surpreendentemente extrema: Deus (ou Sua voz) ‘anda pelo jardim’ (Gen. 3:8)... Ele ‘desce’... Ele ‘sobe’... Ele passa... Ele senta-se em um trono (Isa. 6:1)... Moisés vê Suas costas (Ex. 33:23)”.
YHWH Antropomórfico nos Profetas e Escritos
Visões do Trono: YHWH como Rei Entronizado (Isaías e Ezequiel)
Nos Profetas, principalmente nas visões proféticas, encontramos descrições concretas da aparência de Deus. O profeta Isaías, por exemplo, relata sua grande visão no Templo: “Eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono; e a aba do seu manto enchia o templo”. Nesta cena (Isaías 6:1), YHWH aparece como um rei sentado em um trono, com um manto real cujas orlas preenchiam o santuário. Isaías nota até o detalhe do manto de YHWH, sugerindo uma figura humanóide (um rei) tão grandiosa que seu manto ocupa todo o espaço. Os serafins que circundam o trono cobrem seus próprios rostos e pés com as asas, clamando “Santo, santo, santo” – mas Isaías diz explicitamente: “os meus olhos viram o Rei, YHWH dos Exércitos” (Is 6:5). Novamente, Deus é visto em forma visível. Embora Isaías não descreva os traços de Deus além do manto e trono (provavelmente por reverência), a configuração é antropomórfica: um Ser sentado no trono, trajando vestes. A tradição judaica tardia entendeu que Isaías viu a Shechináh (Glória divina) e não a essência de Deus, mas o texto hebraico simples sugere que o profeta contemplou YHWH sob a forma de um Rei exaltado.
De forma ainda mais elaborada, Ezequiel (capítulo 1) narra uma visão do “carro divino” onde ele vê uma figura humana radiante sobre o trono celestial. Ezequiel 1:26-28 diz: “Acima da abóbada... havia o que parecia um trono de safira, e, bem no alto, sobre o trono, uma figura que parecia um homem. Vi que da aparência dos seus lombos para cima era como metal brilhante, como fogo resplandecente em seu interior; da aparência dos seus lombos para baixo era como fogo, e um resplendor o cercava... Esta era a aparência da figura da glória do SENHOR”. Em hebraico, Ezequiel descreve uma “semelhança como de forma de homem” (demut kemaré adam) entronizado. A parte superior dessa figura tinha brilho metálico incandescente, e a parte inferior parecia fogo, envolta em luz. Apesar do aspecto sobre-humano (luz, fogo, arco-íris ao redor), a forma básica é humana – o próprio texto afirma que era a aparência visível (mar’êh) da “Glória de YHWH”. Ou seja, o profeta vê a Glória divina manifestada como um Ser humano luminoso entronizado. Essa descrição combina antropomorfismo (forma humana, trono) com elementos de majestade cósmica (fogo, luz ofuscante). Ezequiel cuidadosamente usa palavras como “semelhança” e “aparência” (demut, mar’êh) para deixar claro que era uma visão, mas nem por isso deixa de ser uma representação concreta. Vale notar que essa visão influenciou fortemente a imaginação teológica posterior (como a Merkabah mística).
Outra passagem significativa é Ezequiel 8:2, na qual o profeta novamente vê uma forma semelhante a um homem em sua visão: “Olhei, e eis uma figura com aspecto de homem: da cintura para baixo era fogo, da cintura para cima era como brilho de metal incandescente.” Embora Ezequiel diga que é uma aparição da glória de Deus, ele a descreve em termos humanos (cintura, tronco). É tal hipóstase antropomórfica da glória divina que alguns estudiosos a consideram quase uma entidade separada (por exemplo, alguns chamam de Ish Elohim ou Homem de Deus nas visões). Em todo caso, Ezequiel não hesita em usar imagens corporais para o Divino.
Nos Escritos, uma descrição antropomórfica notável aparece em Daniel 7:9-10, onde o profeta (em um texto aramaico) vê Deus como o “Ancião de Dias”: “Continuei olhando… e o Ancião de Dias se assentou; sua veste era branca como a neve, e os cabelos da sua cabeça, como pura lã; o seu trono eram chamas de fogo, com rodas de fogo ardente…”. Aqui Deus é figurado como um ancião régio de cabelos brancos e roupas brancas sentado em glória flamejante. A brancura das vestes e do cabelo simboliza pureza e eternidade, mas são, de novo, atributos físicos (roupa, cabelo) atribuídos a Deus. Esta visão de Daniel reforça a iconografia do trono: YHWH como juiz real no céu, cercado por miríades de seres. Perceba-se que Daniel não diz “era semelhante a um ancião” – ele fala o Ancião de Dias, implicando uma personificação direta de Deus como um velho sábio. A literatura apocalíptica judaica (como 1 Enoque, ver adiante) dialoga com essa imagem.
Também os Salmos e poemas frequentemente empregam linguagem corporal para falar de Deus – embora nesses casos seja mais claramente metafórica, vale mencionar: “Os olhos de YHWH estão sobre os justos, e os seus ouvidos, atentos ao clamor deles” (Salmo 34:15); “A mão direita do Senhor faz proezas” (Salmo 118:16); “Saía fumaça de suas narinas, e fogo devorador da sua boca” (uma descrição poética da ira divina em 2Sm 22:9 / Salmo 18:8). Tais imagens de olhos, ouvidos, nariz, boca, braço de Deus reforçam numa linguagem acessível a ideia de que Deus vê, ouve, cheira as ofertas, fala e age – ou seja, apresentam Deus em termos humanos para efeito de comunicação. A própria expressão “braço de YHWH” significa o poder atuante de Deus, porém imagina um braço musculoso realizando salvamentos. Esses antropomorfismos literários “falam a língua dos homens”, dando concretude à ação divina. Como nota a Enciclopédia Judaica, essas figuras de linguagem são “onipresentes” na Bíblia e cumprem a função de “vestir conteúdos espirituais em imagens concretas”.
Contraste: Textos que negam forma física
É importante ressaltar que, paralelamente a essas descrições antropomórficas, o Tanakh também contém afirmações explícitas da transcendência e imaterialidade de Deus. Por exemplo, os Dez Mandamentos proíbem fazer qualquer imagem de Deus (Êxodo 20:4) e Deuteronômio 4:15 relembra que em Horebe o povo “não viu forma nenhuma” de YHWH. Outros textos declaram: “Deus não é homem” (Números 23:19), “Nenhum olho humano O viu” (cf. Êx 33:20, João 1:18), “Acaso Deus realmente habitaria na terra? Eis que os céus e os céus dos céus não Te podem conter” (1Reis 8:27). Tais versos enfatizam que Deus não tem comparação com nada (Isaías 40:18: “A quem, pois, vocês compararão Deus? Com que imagem O representarão?”) e não possui corpo físico. Essa tensão aparente – textos que negam forma a Deus versus textos que O descrevem com forma – gerou séculos de interpretação. Já na Bíblia percebe-se certo equilíbrio: muitas teofanias são através de anjos de YHWH, de coluna de fogo/nuvem ou glória radiante, em vez de Deus “nu e cru” em forma humana. Entretanto, como vimos, há passagens em que o redator bíblico optou por uma descrição corpórea direta. Essa dicotomia interna foi observada por estudiosos: “Muitos versos afirmam que nada se compara a Deus, que Ele não tem forma ou figura... Contudo, muitos desses versos parecem contradizer outros que descrevem Deus em termos corporais”. A resolução desse dilema foi um empreendimento exegético tanto de judeus quanto de cristãos ao longo dos séculos.
Descrições Antropomórficas em Fontes Apócrifas Judaicas
Os textos apócrifos e pseudepígrafos do Período do Segundo Templo e posterior também apresentam representações concretas de Deus, frequentemente expandindo visões como as de Isaías, Ezequiel e Daniel. Um exemplo notável é o Livro de 1 Enoque (apócrifo judaico, séc. III a.C. aprox., preservado em ge’ez). Na “Visão de Enoque” (1 Enoque 14:18-23), o patriarca Enoque é levado ao céu e descreve a sala do trono divino de forma vívida: “Vi um trono elevado... e sobre ele estava assentada a Grande Glória; suas vestes eram como o brilho do sol e mais brancas que a neve abundante. Nenhum anjo podia entrar naquela casa e contemplar Sua face, por causa da esplendor e da glória; e nenhum ser humano era capaz de olhá-Lo”. Essa descrição impressionante apresenta Deus (a “Grande Glória”) sentado no trono, com vestes radiantes e uma face tão gloriosa que nem anjos nem humanos conseguem encarar. Note-se que aqui, embora Deus seja imaginado antropomorficamente (com trono, roupa e face), sublinha-se sua inacessibilidade visual devida à intensidade de Sua luz. É uma antropomorfização combinada com transcendência: Deus tem forma humana mas de brilho insuportável. A cena lembra Daniel 7 (que descreve veste branca e fogo) e também Ezequiel (trono de safira, fogo e luz), e de fato 1 Enoque 14 parece tecer uma colcha de retalhos com elementos dessas visões bíblicas, porém colocando-os na boca de Enoque.
Outro texto apócrifo, o Apocalipse de Abraão (de origem judaica, possivelmente século I d.C.), também contém uma visão do Divino. Abraão é levado por um anjo aos céus e lá vislumbra Deus presente na Merkavá (carruagem celeste). Embora os detalhes variem conforme a tradução, há menção de uma figura sobre o trono de fogo e muitas vezes Deus fala diretamente com Abraão. Em uma passagem, Abraão descreve “A Voz do Santíssimo [vindo] de uma luz de fogo, como de muitas águas” – indicando um trono flamejante e uma Presença sobre ele. O antropomorfismo aqui é velado em luz e fogo, similar a Ezequiel.
Um conceito esotérico notório é o do Shi'ur Komáh (“Medida do Corpo”), presente na literatura mística judaica primitiva (talvez séc. II-III d.C., associada aos Heikhalot/Merkabah). Trata-se de descrições detalhadas e altamente simbólicas das dimensões colossais do “corpo” de Deus. Embora essas obras sejam pós-bíblicas e consideradas fora do cânone, elas mostram a continuidade da tendência de imaginar Deus em forma humana – neste caso, com membros de proporções astronômicas e nomes secretos atribuídos a cada parte do corpo. O Shi’ur Komah cita Cântico dos Cânticos 5:11-16 (que descreve o corpo de um amado) interpretando-o como descrição do próprio YHWH. Os místicos trataram essas descrições como alegorias profundas da “glória oculta” de Deus ou do “corpo da Shechiná”, enquanto rabinos racionalistas (como Maimônides) as rejeitaram energicamente devido ao seu antropomorfismo exagerado. De todo modo, a existência desse tipo de texto mostra que a imaginação religiosa judaica, em certos círculos, não recuou diante de representar Deus em termos corporais – ainda que com intuito místico. Um fragmento citado na Enciclopédia Judaica aponta que até mesmo no Livro eslavo de 2 Enoque (outro pseudepígrafo) há referência a uma visão da “medida da altura de Deus” infinita, possivelmente conectando-se a essa tradição do Shi’ur Komah.
Em outros apócrifos podemos citar: o Livro dos Jubileus reconta episódios do Gênesis/Êxodo e menciona anjos e a presença de Deus, mas sem grandes detalhes antropomórficos adicionais além dos já bíblicos. O Livro da Sabedoria de Salomão (Sabedoria 18:15-16) poetiza que o “Verbo Todo-Poderoso” de Deus “saltou do céu, do trono real” para executar juízo – uma personificação do “Verbo” como emanado do trono divino. Apesar de metafórica, essa linguagem aproxima-se de dar forma ao poder divino. Já nos Manuscritos de Qumran (Descobertos no Mar Morto, séc. II a.C. – I d.C.), encontramos hinos e liturgias descrevendo a corte celestial. Por exemplo, os “Cânticos do Sacrifício de Sábado” pintam cenas do Trono de Deus cercado por anjos, e embora não descrevam diretamente a figura de Deus, exaltam Sua Presença entronizada no templo celeste, com linguagem de luz e glória que ecoa Isaías e Ezequiel. Não se evidencia nas cópias de Qumran nenhuma alteração deliberada para remover antropomorfismos dos textos bíblicos – pelo contrário, textos como o Grande Rolo de Isaías do Mar Morto preservam Isaías 6 quase idêntico ao massorético (Deus no trono com seu manto). Isso sugere que a comunidade de Qumran aceitava as teofanias antropomórficas da Escritura, talvez entendendo-as à sua maneira sectária (eles falam muito da Kavod de Deus).
Em resumo, os apócrifos judaicos continuam a tradição de theophanies físicas: intensificam a iconografia do trono celeste e da figura humana radiante (como em 1 Enoque), ou desenvolvem ideias esotéricas sobre o “corpo divino” (Shi’ur Komah), ainda que sempre cercadas de reverência – muitas vezes afirmando que tal visão é extremamente difícil ou acessível apenas a escolhidos. Essas fontes, embora não canônicas, atestam que a noção de Deus assumindo uma aparência visível permaneceu viva em certos setores do judaísmo antigo.
Divergências Textuais e Interpretação Teológica
As representações antropomórficas de YHWH, embora comuns nos textos antigos, geraram desconforto em intérpretes posteriores preocupados com a transcendência divina. Já no período helenístico, tradutores e comentaristas mitigaram alguns antropomorfismos:
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A Septuaginta (LXX) – a tradução grega do séc. III–II a.C. – em geral verte literalmente as descrições corporais de Deus, mas há casos de atenuação. Por exemplo, como mencionado, em Números 12:8 o hebraico “ele contempla a forma (temunáh) de YHWH” foi traduzido como “ele contempla a dóxa (glória) do Senhor”. Assim, onde o original atribuía forma, a LXX atribui uma manifestação luminosa (glória), evitando dizer que Deus tem forma visível. Em outras passagens, a Septuaginta usa eufemismos ou leves ajustes: o “nariz” de Deus (hebraico af, que também significa ira) é geralmente traduzido por “ira” em si; expressões como “Deus arrependeu-se” são trocadas por “Deus refletiu”, etc., para evitar atribuir paixões humanas. Entretanto, esse processo não foi sistemático – muitos antropomorfismos permanecem na LXX. Entre os tradutores gregos posteriores, Symmachus (séc. II d.C.) foi conhecido por eliminar personificações divinas; ele chegava a reformular Gênesis 1:27, separando “imagem” e “Deus” para não dizer “imagem de Deus” literalmente.
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Os targumim aramaicos (traduções/parafrases judaicas) empregam consistentemente técnicas para evitar imaginar Deus corporalmente. O Targum Onkelos do Pentateuco, por exemplo, sempre que possível substitui menções diretas de YHWH agindo fisicamente por expressões como “a Palavra do Senhor” (Memra) ou “a Glória do Senhor” no lugar de YHWH em si. Assim, onde o hebraico diz “YHWH desceu sobre o Sinai” (Ex 19:20), o targum pode verter “a Glória do Senhor revelou-se no Monte Sinai”. “YHWH disse” às vezes vira “Foi revelado perante Ele” no sentido de “Ele soube”. Se a Escritura hebraica diz “Ele viu” ou “Ele ouviu” (Deus), Onkelos traduz “foi visto diante dele” ou “foi ouvido diante dele” – transformando verbo ativo de Deus em passiva impessoal. Onde Deus “vai” ou “vem”, o targum muitas vezes coloca “Ele se revelou” ou “fez habitar Sua Shechiná”. Esses ajustes linguísticos refletem um princípio teológico: evitar atribuir a Deus ações ou partes corpóreas de forma literal. Ainda assim, nem mesmo Onkelos foi 100% consistente – ele traduz literalmente alguns antropomorfismos óbvios se achava que o leitor comum entenderia o sentido figurado (como “mão de Deus” para poder). Em outros targumim, como o Targum Yerushalmi (Jerusalém), a tendência anti-anthropomórfica é ainda mais forte, frequentemente expandindo explicações para deixar claro que Deus não tem corpo.
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Já vimos também indícios de que os massoretas (sábios judeus que fixaram a vocalização do texto bíblico por volta do séc. VII-X d.C.) possivelmente fizeram pequenas alterações para suavizar antropomorfismos. Um caso sugerido por alguns acadêmicos é Êxodo 34:24. O texto consonantal hebraico original pode ser lido como lir’ot (“para ver [a face do Senhor]”) mas os massoretas apontaram a leitura lere’ot (“para ser visto [diante do Senhor]”), trocando voz ativa por passiva. Assim, em muitas Bíblias lê-se “aparecer perante o Senhor” ao invés de “ver o Senhor”. Essa sutil mudança vocal pode refletir um escrúpulo teológico: evitar a sugestão de que os fiéis literalmente “viam” a face de YHWH nas peregrinações ao Templo. Não há muitos casos claros documentados de emenda massorética com essa motivação, mas este exemplo é revelador.
No que tange a manuscritos de Qumran, as cópias bíblicas lá encontradas geralmente confirmam o texto massorético nas passagens citadas, sem variantes substanciais nas teofanias antropomórficas. Isso indica que tais descrições vinham sendo transmitidas fielmente. Porém, a interpretação podia variar: a comunidade de Qumran tendia a enfatizar termos como Kavod (glória) e a presença de Deus em meio aos anjos, possivelmente vendo nisso uma forma de mediar a distância entre o Deus transcendente e as visões humanas.
Do ponto de vista teológico, as descrições antropomórficas suscitaram respostas diferentes ao longo da história judaica:
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Autores judaicos helenísticos como Filon de Alexandria (século I) insistiram em ler essas passagens de forma alegórica. Filon argumentou que Deus é absolutamente sem corpo ou emoções; assim, todas as menções de “mãos”, “face”, “ira”, etc., de Deus na Torá seriam metáforas para atributos ou ações imateriais. Filon chegou a postular que entre o Deus totalmente transcendente e o mundo existiria o Logos divino (Palavra), justamente para explicar como a Bíblia podia falar de Deus agindo/criando sem comprometer Sua pureza incorpórea.
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Os rabis (Talmud e Midrash) adotaram a fórmula “A Torá fala na língua dos homens” – ou seja, Deus Se descreveu antropomorficamente apenas para que nós, humanos, pudéssemos entender. Ao mesmo tempo, nos midrashim frequentemente acrescentam-se ressalvas como kivyakhol (“por assim dizer”) após uma afirmação antropomórfica, para indicar que é modo de dizer, não realidade literal. Exemplos: “Se não estivesse escrito na Escritura, não ousaríamos dizer que Deus… [faz tal coisa]”. Apesar dessas qualificações, a literatura rabínica está repleta de imagens audaciosas de Deus agindo humanamente: “O Santo, bendito seja, põe tefilin” (filactérios), “Deus chora pela destruição do Templo”, “Deus mostra a Moisés o nó de Seus tefilin atrás de Sua cabeça” (Midrash sobre Ex 33:23), etc. – claro, sempre com um sentido pedagógico ou místico. Ou seja, não houve uma censura total dessas ideias; os sábios muitas vezes as abraçaram como linguagem figurativa útil, desde que se esclarecesse que era condescendência divina à nossa compreensão.
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Na filosofia judaica medieval, culminando em Maimônides (séc. XII), houve um esforço sistemático de expurgar qualquer literalidade nos antropomorfismos. Maimônides, em sua obra Guia dos Perplexos, afirma que Deus não possui corpo nem emoções físicas, e interpreta todas as referências bíblicas corporais como metáforas ou termos equívocos a serem reinterpretados (para ele, “mão” de Deus = “potência”; “olhos” = “onisciência”; “descer” = “agir no mundo”, etc.). Ele declara que qualquer um que tome atributos físicos de Deus literalmente é um herege, violando o princípio da unidade e incorporeidade divinas. Esse ponto de vista tornou-se dominante no judaísmo normativo pós-medieval: a Ortodoxia judaica incluiu nos 13 Princípios de Fé de Maimônides que Deus não é corpóreo e nada Se assemelha a Ele. Ironicamente, a veemência de Maimônides indica que ainda em seu tempo havia muitos judeus entendendo de maneira simplória as passagens antropomórficas. A polêmica foi tão grande que rabinos mais literais criticaram Maimônides por “explicar demais” (temiam que alegorizar tudo minasse a historicidade da Torá). Ainda assim, a visão maimonidiana venceu: hoje lê-se essas descrições como figuras de linguagem ou visões proféticas, não como descrição literal do ser de Deus.
Em conclusão, os textos antigos do Velho Testamento não tiveram escrúpulo em retratar YHWH com atributos humanos – Deus anda, fala, luta, mostra mãos, costas e rosto, senta em Seu trono, veste-se, etc. – para comunicar Sua realidade de modo tangível. Tais antropomorfismos serviam para tornar Deus presente e ativo na experiência dos fiéis, ainda que coexistissem com a consciência de Sua transcendência infinita. Essa “tensão” faz parte do dinamismo da teologia bíblica: como expressar o relacionamento vívido com Deus sem cair em idolatria? A solução bíblica foi frequentemente falar de Deus “como se” fosse humano em suas manifestações. As fontes apócrifas continuaram essa linha, às vezes expandindo-a ainda mais. Já a tradição interpretativa posterior buscou equilibrar ou redefinir essas imagens, enfatizando que Deus em Si mesmo é insondável e sem forma, e que tais descrições são analógicas ou visionárias. Contudo, graças a essas passagens antropomórficas, a Bíblia legou-nos algumas das imagens mais dramáticas e ricas de Deus – o Pai que caminha com seus filhos no jardim, o Ancião majestoso no trono flamejante, o Guerreiro cuja mão poderosa resgata, o Amigo íntimo que fala face a face. Essas representações concretas, lidas à luz do contexto e do gênero literário, continuam a inspirar reflexões profundas sobre como o Infinito interage com o finito.
Referências utilizadas: Descrições bíblicas de YHWH no Tanakh; Interpretações e alterações textuais (Targum, LXX, Massoretas); Passagens apócrifas (1 Enoque 14); Discussão teológica judaica sobre antropomorfismo, conforme Encyclopaedia Judaica e outras fontes vinculadas.

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